O ministro do STF, Flávio Dino, questionou na semana passada como ninguém percebeu as irregularidades no Banco Master. “Como ninguém viu? O elefante é grande, está pintado de azul, desfilando na frente de todo mundo”, disse.
Especialistas apontam que Daniel Vorcaro e seus sócios usaram a favor do Master os sistemas regulatório, político e jurídico. Esses sistemas incentivam a omissão, não a denúncia, segundo eles, o que abriu espaço para a fraude bancária mais custosa da história do país, com prejuízos estimados em R$ 60 bilhões.
O advogado José Andrés Lopes da Costa afirma que a dinâmica da omissão contaminou as estruturas de regulação e fiscalização nos últimos anos. Ele apresenta duas leituras para o caso. A primeira é a do escândalo, com falhas individuais e conluio. A segunda é técnica: os sistemas não oferecem incentivos à reação, fazendo com que cada agente prefira não ver.
Exemplos dessa dinâmica surgiram no próprio caso Master. Em 2024, três gestores da Caixa Asset foram afastados após redigirem um relatório contra a compra de R$ 500 milhões em letras financeiras do banco. Em 2025, o então presidente da CVM, João Pedro Nascimento, renunciou nove dias após votar contra a Ambipar em um caso envolvendo o Master. O interino Otto Lobo reverteu o voto e foi indicado por Lula para a presidência da autarquia.
O economista Marcos Lisboa destaca o risco de sanções para quem age preventivamente. Servidores que tentam evitar fraudes podem ser acionados na Justiça ou questionados pelo TCU. O próprio TCU questionou o Banco Central sobre a liquidação do Master, apurando possível “precipitação”.
Nos Estados Unidos, o ambiente é oposto. A False Claims Act garante ao denunciante de 15% a 30% dos valores recuperados. O Dodd-Frank Act criou um programa na SEC que paga de 10% a 30% das sanções acima de US$ 1 milhão para quem fornece informações que levem a ações bem-sucedidas.
Lisboa também aponta o tratamento difuso da responsabilidade solidária no mercado financeiro. Segundo ele, as corretoras são responsáveis pelos produtos que oferecem e deveriam alertar os investidores. Os balanços do Master já mostravam riscos, como a concentração de ativos em precatórios e a dependência de recursos de partes relacionadas.
O economista Roberto Teixeira da Costa afirma que a fragilidade do Master era identificável. Ele destaca que CDBs com taxas muito acima do mercado são um alerta e que a proteção do FGC ajudou a sustentar a captação agressiva do banco. Ele defende a recalibração do fundo para reembolsar 75% do valor investido.
O advogado Guilherme France, da Transparência Internacional, ressalta a rede de influência criada por Vorcaro, com representantes nos três Poderes. Para ele, essa rede intimida investigações. “Se há proximidade de ministros do Supremo, qual o incentivo para um procurador investigar o dono deste banco?”, questiona.
